Cúpula climática termina com acordo histórico de US$ 1,3 trilhão para países em desenvolvimento
Após 14 dias de negociações tensas em Nairóbi, delegações de 198 países selaram um pacto inédito de financiamento — mas críticos apontam lacunas decisivas no cronograma de implementação até 2030.
O acordo, fechado às 4h12 da manhã desta sexta-feira após uma noite em claro, estabelece um fundo de US$ 1,3 trilhão para apoiar a transição energética em 87 países classificados como vulneráveis. É o maior compromisso financeiro coletivo já assinado em uma cúpula do clima — quase quatro vezes superior ao pacto anterior, firmado em 2024.
O texto, de 142 páginas, prevê desembolsos anuais escalonados a partir de 2027, sob fiscalização de um novo conselho independente sediado em Genebra. Os recursos virão de uma combinação inédita de fontes públicas, fundos multilaterais e — pela primeira vez — uma contribuição obrigatória do setor privado vinculada a uma sobretaxa sobre lucros do petróleo.
“Não é o acordo perfeito, mas é o acordo possível”, disse a presidente da conferência, a queniana Wanjira Mathai, em coletiva minutos depois da assinatura. “Chegamos a um ponto em que adiar mais uma vez seria pior do que aceitar imperfeições.”
O que mudou em relação a 2024
A diferença mais significativa em relação à cúpula anterior está no mecanismo de governança. Pela primeira vez, o conselho fiscalizador terá poder vinculante para suspender desembolsos a países que descumprirem metas intermediárias — uma exigência que travou as negociações por nove dias e que foi destravada apenas após uma proposta conjunta de Brasil, Índia e África do Sul.
O segundo ponto crítico foi a definição de “transição justa”. O texto final adota a definição da OIT de 2015, mais restritiva, que exige planos nacionais de requalificação profissional como condição para acesso pleno aos recursos. Países produtores de carvão resistiram até a última hora.
“O cronograma é ambicioso, mas a arquitetura é pragmática. Se sobreviver aos próximos doze meses, será o documento mais importante de política climática desde Paris.”
— Mariana Vilhena, IPEA
As três lacunas que preocupam especialistas
Apesar do tom celebratório, analistas ouvidos pelo Chicken in a Suit apontam três lacunas que podem comprometer a implementação:
- Verificação de adicionalidade. O texto não define com clareza quais recursos contam como “novos”. Países podem reapresentar compromissos antigos como parte do fundo.
- Mecanismo de saída. Não há cláusula de penalidade para signatários que se retirem do acordo após 2028 — situação considerada provável em ao menos quatro economias avançadas.
- Auditoria do setor privado. A sobretaxa do petróleo será coletada pelos próprios países, sem auditoria internacional independente nos primeiros três anos.
“São lacunas conhecidas”, reconhece Mathai. “A escolha foi: aprovar agora com elas ou seguir negociando até a próxima cúpula. Optamos pela primeira.”
O que vem agora
Os próximos 12 meses serão decisivos. Cada país signatário tem até abril de 2027 para apresentar um plano nacional de implementação, com metas anuais auditáveis. O conselho de Genebra começa a operar em janeiro, com mandato de 15 anos.
No Brasil, o Ministério da Fazenda já anunciou que apresentará a proposta nacional ao Congresso em julho, com expectativa de votação até outubro. Estima-se que o país possa acessar entre US$ 14 e 18 bilhões nos primeiros cinco anos do programa.
A próxima cúpula está marcada para novembro de 2027, em Belém — a primeira conferência do clima a ser sediada na Amazônia. A escolha foi confirmada poucas horas antes do encerramento desta edição.
Helena Marques
Bio do autor — adicionar depois via collection `authors` ou frontmatter expandido.